domingo, agosto 30, 2009




Encerro o Mínimos Óbvios hoje.
Obrigado pelo tempo de leitura.

Deixe seu contato para saber de futuros trabalhos.
Um beijo

domingo, agosto 16, 2009



DIÁLOGOS QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO – PARTE 2


Melvin Udall
Agora… Tenho um grande elogio pra você e é verdade.

Carol
Eu estou preocupada que você me diga alguma coisa horrível.

Melvin
Não seja pessimista. Não é o seu estilo. Muito bem. Aqui vai. Certamente vai ser um erro. Eu tenho essa... doença. O meu médico, um psiquiatra que eu costumava ir, disse que em 50 a 60 por cento dos casos, um comprimido ajuda. Eu odeio comprimidos. São perigosos. Odeio, estou usando a palavra odeio aqui, sobre comprimidos. Odeio. O meu elogio é que, na noite em que me disse que nunca... bem, você estava lá, você sabe o que você disse. Então, o meu elogio para você é que na manhã seguinte eu comecei a tomar os comprimidos.

Carol
Eu não entendo como isso possa ser um elogio para mim?

Melvin
Você me faz ter vontade de ser um homem melhor.

Carol
Esse deve ser o melhor elogio da minha vida.

Melvin
É provável que eu tenha exagerado. Eu só queria impedir que você fosse embora.


(do filme Melhor é Impossível)
Escrito por Mark Andrus e dirigido por James L Brooks

sexta-feira, agosto 14, 2009



A BELA JUNE de Christophe Honoré

Quando eu conheci o Marcelo, de todos os detalhes que eu não me lembro, um deles há de sempre ser aquele pelo qual eu vou me recordar não do nome ou da pessoa, mas também da atmosfera: fazia sol. Muito sol. E se você é carioca ou se já esteve no Rio de Janeiro em um dia de muito sol, vai saber que o céu costuma acompanhar o sol em um azul muito forte, quase de pintura e todas as cores da natureza ganham intensidade naturalmente. As folhas das árvores ficam mais vivas. Os carros nas ruas acendem suas formas e cores. Os traços das pessoas se evidenciam. A arquitetura da cidade ganha novos sentidos. Tudo fica mais nítido. Mais natural, eu arriscaria. Quando eu conheci o Marcelo, era um dia azul e quente, embora um tanto distante do verão. Início da primavera com resquício forte da baixa temperatura do inverno, que para nós é algo em torno dos dezoito, vinte graus. Um amigo me soprou que seria realmente interessante para mim conhecer o Marcelo. E contrariando toda a minha facção anti-social, saí curioso. Instigado pela propaganda gratuita.

Ele chegou usando jeans e uma camiseta preta. E antes do perfume, havia o sorriso e um pouco antes do sorriso havia um rosto muito bonito, com traços fortes, a barba clara e rala, os olhos azuis como o céu e o cabelo liso, muito liso que lhe cobria o rosto e em alguns momentos boa parte dos olhos. Não era exatamente alto, mas havia algo nele que causava essa sensação de altura, não exatamente imponência, mas altivez. E parecia caber e não só caber, mas dominar seu corpo e suas atitudes em perfeita harmonia. Era calmo, silencioso e olhava diretamente nos olhos. Seu interesse inicial era pela pessoa e embora sua beleza despertasse o interesse de homens e mulheres, ele parecia disposto a fazer compreender, logo em um primeiro momento, que o motivo principal não era, de fato, o motivo principal para qualquer aproximação.

- Eu te imaginava mais sério – ele me disse.
- Mas a gente nem conversou.
- Pelo que eu já ouvi de você, pelo que eu já li, eu imaginava um homem com cigarro na mão, umas vodkas ao redor, um olhar mais triste e você...
- Eu?
- Você tem essa cara de menino e seu olhar é tão diferente do que imaginei.
- Diferente?
- Vivo.
- E isso deveria ser ruim? Um olhar vivo eu encaro como um elogio.
- Não sei se foi bacana te conhecer. Eu gosto mais da imagem que eu tinha.
- Sua imagem é um clichê que eu fico aliviado de não corresponder. Viu como rimou?
- E eu?
- Você?
- Eu correspondo à imagem que você criou?
- Posso ser chato? Velho? Irritante? Direto?
- Deve.
- Eu não criei imagem alguma. Me disseram apenas que eu deveria te conhecer. E me disseram também que você era um cara bonito, muito bonito, que as pessoas caíam em cima. Não entendi ainda a associação que fizeram entre nós dois. Não sei qual foi o santo que de repente, achou que nós poderíamos nos dar bem, mas eu estou aqui. Eu vim para te conhecer. Não há como negar ou deixar de perceber o homem bonito que você é. Essa na verdade era a imagem que eu tinha de você. Um homem bonito, mas não tive curiosidade ou desejo de te imaginar porque eu não tenho mais dezoito anos. Então não posso te dizer que você não corresponde minhas expectativas, porque não houve expectativa. E um homem bonito é um homem bonito, não há muito que elaborar.
- Mas beleza é um conceito subjetivo.
- Papo de gente feia. É só um fato. Você é. Ponto. Próximo assunto?
- Nós temos amigos em comum.
- Essa cidade é minúscula.
- Um dia um conto seu caiu nas minhas mãos. Fiquei com vontade de te conhecer.
- Opa, que bacana. E você trabalha, namora, estuda, têm filhos?
- Trabalho, estudo, namoro, não tenho filhos.
- Gosta de cinema?
- Mais do que o filho que eu ainda não tive.

Nos encontramos mais três tardes em um período curto de dois meses. O contato inicial era sempre muito difícil, muito desencontrado, mas a conversa realmente ganhava intensidade, velocidade e paixão quando o assunto era cinema. Os atores, as cenas prediletas, os filmes, festivais, diretores, decepções, grandes obras, curiosidades.

No último encontro, ele pediu o número do meu telefone. Eu não dei. Disse que era melhor a gente não alimentar o poço dos desejos. Ele perguntou qual desejo. Eu sorri em silêncio e me despedi acenando.

Até que uma madrugada, o computador ligado e o programa de conversa piscou o meu nome:

- Olá você.
- Marcelo?
- Te atrapalho?
- Não. Que surpresa.
- Te encontrei.
- Não me escondi de você.
- Posso ligar a câmera? Assim você me vê, fica mais fácil a conversa.
- Sem problemas.

Ele usava um casaco preto. Quando a imagem tomou forma na tela do computador, ele estava com o gorro e o casaco fechados. A barba feita. Os olhos atentos. O rosto lindo. Passei a mão na tela do computador para saber a sensação. Como se eu pudesse tocá-lo.

- O que você faz em casa? – eu resolvi arriscar qualquer conversa.
- Qual o mistério de ficar em casa?
- Nenhum. Eu adoro a minha casa. Mas achei que você fosse da madrugada. Festas, bares, noitada.
- Todos somos, não é?
- Alguns menos.
- Posso tirar o casaco?
- Você quer minha permissão? Pode, claro que pode.

Quando ele abriu o casaco e abaixou o gorro eu tive a sensação. Era como se eu fosse um artista de circo. Era como se eu resolvesse me equilibrar no arame. Ou saltasse de um trapézio para o outro à espera de uma mão que me agarrasse e me salvasse da queda. Era não saber. E estar absolutamente envolvido pelo mistério sem nome de uma interrogação irresistível e sedutora, com os cabelos bagunçados e uma camiseta branca que revelava os músculos dos braços, a linha dos traços do pescoço. Uma geografia que eu não conhecia e se mostrava, com a minha permissão, dentro de uma cadência que se estabeleceu sem que eu percebesse.

- Eu comprei um brinquedo hoje – ele me confessa.
- Um brinquedo?
- Um brinquedo sexual. Quer ver?

Havia o desejo de dizer boa noite e desligar o computador.
Havia em mim a curiosidade de saber onde o desejo ia me levar.

Ele abriu o sorriso.
Ele abriu.
Eu não soube dizer não.
Eu não.
Ele brincou com os meus sentidos.
Ele fez.
Eu aceitei a ousadia.
Eu não fujo.
Ele soube seduzir.
Eu disse sim.
Ele conduziu a situação com muita dignidade.
Eu consenti.
Ele mostrou intimidade e soube compartilhar.
Eu me arrepiei.
Ele abriu o zíper.
Ele abriu.
Ele soube jogar.
Eu sei.
Ele fez o jogo limpo com as luzes acesas e a intenção sem máscara apontando para mim.
Eu não corei.
Ele abriu o cofre da intimidade.
Eu decorei a combinação.
Ele me mostrou o início, o meio, o fim e o depois.
Eu não me perdi.
Ele fez brincadeiras.
Eu me diverti.
Ele abriu um sorriso.
Eu abri.

Quando eu conheci o Marcelo, eu não sabia exatamente o que ia mudar, mas eu sabia. Como uma certeza camuflada que se mostra lentamente, eu sabia. Eu soube.

Só não contei a ninguém.

Eu sei.

sexta-feira, agosto 07, 2009



UP! ALTAS AVENTURAS de Pete Docter e Bob Peterson

00:10

Deixa eu te dizer, sem o susto, algumas frases que dançam em mim já faz alguns dias e até ainda agora, não havia encontrado a possibilidade de uma carta para tentar organizar o pensamento, tão pouco imaginar alguma poesia. Deixa eu te informar as circunstâncias: eu estou no metrô, voltando para casa e é quase meia-noite, ainda não sei se consigo chegar ao meu destino. Não tem um papo de que o metrô para de funcionar perto das doze horas e o passageiro precisa descer onde estiver e se virar? De maneira que eu não sei o que vai acontecer comigo nos próximos minutos, da mesma forma que ninguém sabe. Há algum mistério encantador nesse fato. De não saber ou poder controlar o que não tem controle.

Ao meu lado, um rapaz ouve música e canta baixinho. Faço um esforço auditivo para tentar descobrir qual música lhe embala a viagem. Qual a trilha sonora de quem volta para casa, desafiando o relógio? O que eu quero te dizer precisa de atenção. Para que eu não pareça confuso. Ou repetitivo.

Eu te quero bem. Com simplicidade. Sem motivos espetaculares. Apenas com a serenidade de um homem de trinta anos que corre atrás da nobreza. Sem o susto, da minha maneira, eu tenho informado a mim mesmo de um jeito inesperado, da tua chegada. Avassaladora. Assim mesmo, sem fugas. Aceitando as pessoas, como presentes.

Seguindo a viagem, deixe que eu te diga enquanto o metrô não me expulsa, que o meu bem querer pode ecoar – e deverá, certamente – no plural. Trazendo todas as necessárias surpresas de quem se arrisca nos olhos e na confiança do outro. Assim é toda conquista. Assim o caminho se estabelece. As histórias de verdade começam dessa maneira.

Sem o susto porque tudo o que eu quero, nesse momento, é te dizer do meu querer bem. Flecha direta que deseja o alvo. Mas não sabe do percurso. Como a noite de hoje. Pode ou não me revelar surpresas e eu espero sinceramente chegar em casa sem interrupções, como também espero acertar o centro do alvo.

Quer ser meu amigo?

Acho que esse chute inicial anuncia uma boa temporada para ambos os times. Sem o susto – e o inesperado nem sempre me assusta – te escrevo para te informar o que não tem explicação. E aproveito para te dizer que estou quase na estação perto da minha casa. Viva o metrô carioca que faça chuva ou faça sol, sempre acerta os trilhos do meu destino. Eu, que vez ou outra, escapo da linha traçada. Quem não escapa? Agora eu vou descer e caminhar um pouco, organizar as palavras as palavras enquanto a noite avança.

Deixa eu te dizer que já foi dito
o que eu gostaria de dizer.
No meio da confusão dos trilhos do metrô
E da porta que vai abrir em alguns segundos
Para que eu saia.
Enquanto não abre,
As palavras dançam
E enfeitam o branco da folha e me deixo conduzir
Porque não me assusta escrever
Te escrever.

19:45

Havia o céu nublado na saída do metrô e era bom e era lindo em profundidade e nuvens. Até que esbarrou no ombro de um homem que passava distraidamente, como ele. Uma vida que encontra outra no repente. Os olhos se reconhecem, sorriso. Amigos de bairro, de infâncias e adolescências. Vidas que se conhecem desde a ingenuidade dos corpos no banho à descoberto dos pêlos. Do calafrio do tesão ao toque inédito no universo do corpo do outro. Vidas que comemoraram gols de Copa do Mundo, que choraram perdas, que trocaram camisas quando um foi ser ator e outro militar. Vidas que se arriscaram e se arriscam todos os dias em simplicidades necessárias. Beberam o encontro depois de tanto tempo e foi bom, muito bom. Como se um fosse o risco do outro. E sequer se procuraram. Se encontraram no meio de tudo, acidente da natureza, no início da madrugada, no recomeço de um desejo.

Informaram-se.
Precisaram-se.
Experimentaram-se.
E a intimidade de quem se arrisca provoca o abismo,
a comunhão, o susto.
Não é assim?
Vidas que se perdem e se encontram porque não se perderam.
Arriscar sempre, sorriu bobamente.
A noite foi um delicado sorriso doce.
De homem para homem.

segunda-feira, agosto 03, 2009



BEIJOS E TIROS de Shane Black


Eu marquei no Cine Odeon. Um cinema extremamente agradável no Centro do Rio de Janeiro. A programação me agrada. A paisagem é acolhedora. E o principal, o clima é gostoso e sociável. Encontrar o Alê, na atual circunstância, só poderia acontecer em lugares movimentados, onde brigas e gritos destoassem. Eu cheguei antes, embora tivesse ensaiado chegar atrasado para causar a sensação de que não estava tão preocupado. Eu queria que ele pensasse que encontrá-lo não era o motivo principal do meu dia, que eu era um homem cheio de compromissos novos. Não consegui.

Ele chegou vinte minutos após o combinado.

Parte do atendimento do restaurante do Cine Odeon é feito dentro de um cercado de madeira, na calçada da Praça da Cinelândia. Por intuição, eu achei que ali seria o lugar ideal para sentar e conversar ou pelo menos tentar conversar. Quando não existe um motivo específico, fica muito difícil se fazer entender. Porque não dá para sentar e olhar para o rosto de alguém com quem você viveu por oito anos e dizer que ‘é uma soma de fatos que me fazem querer me afastar’. Mas foi exatamente assim que eu comecei a conversa.

- É uma soma de fatos que me fazem querer me afastar.
- Não fode, Jr. Você nunca foi subjetivo com nada na vida. Vai me fazer acreditar que você quer sair de cena, porque somou os fatos? Que fatos?
- Reitero que eu não vim para brigar.
- Uma porra essa situação. Você escreve seus textos no blog e de repente, eu viro o carrasco da situação. Teus amigos estão me olhando de cara feia. Você fica ótimo nesse papel de vítima e eu viro o monstro.
- Eu não cito nomes no blog.
- Você nunca citou, mas sempre escreveu em primeira pessoa. Então para qualquer pessoa que tenha o mínimo de intimidade com a nossa vida, fica fácil de saber o que acontece entre nós. Eu detesto essa sensação de não ter privacidade.
- O que te irrita é que você deixa de ser impenetrável, perfeito, puro. O herói também é gente e faz cagada, veja você. Essa conversa não se trata de nós dois, Alê. Ela abala a imagem que você gosta de impor e isso te irrita.
- Eu te chamei aqui porque eu quero entender a tua atitude.
- Eu não vou te explicar. Eu te escrevi.
- Você me escreve com freqüência e nem sempre eu sinto que é para mim. Você e essa fantasia, essa tua idéia do amor. A vida não é como nos livros.
- Minha vez de dizer não fode.
- Eu quero entender. O que você quer me dizer? Que acabou? Que nós dois já não somos mais os mesmos? Que todos os meus defeitos te irritam e te afastam? Eu quero que você me diga.
- Eu preciso de um tempo.
- Eu preciso que você seja objetivo.
- O que você quer que eu diga?
- Eu não aceito o teu tempo. Não vou te dar um tempo pra você sair por aí trepando com outros caras, para depois de dois, três meses, voltar e me dizer que agora está pronto para recomeçar.
- Enquanto eu trepo com outros, onde você vai estar? Rezando uma missa? Não seja hipócrita. Sua vida sexual sempre foi mais intensa que a minha.
- Eu acho um saco casal que dá um tempo.
- Eu quero ver como é que a minha vida acontece sem a sua.
- Então eu quero que você me olhe nos olhos e diga que quer terminar comigo.
- Eu não vou fazer isso.
- Porque você ainda me ama!
- Abra um champanhe.
- O seu problema é que você se agarrou às palavras de tal forma, que perdeu a noção da realidade. Você entrou num túnel subjetivo com questões profundas e desconexas e se perdeu.
- Você se coloca muito bem para alguém que desdenha das palavras.
- Não fuja do assunto.
- Eu não quero terminar. Mas eu preciso me afastar. Pensar. Sentir como é viver sem você. Recuperar a individualidade. Entre nós, tudo ficou muito viciado. Nós nos banalizamos.
- Essa tua terapeuta deveria ser pendurada numa praça e apedrejada. Como é que você ainda paga essa mulher?
- A Sofia não sabe da minha decisão.
- A Sofia é uma farsa. Assim como você. Termine comigo. Termine. Seja honesto, verdadeiro. Se for isso o que você quer, termine. Só não me deixe em suspensão. Atado a um tempo que não existe. Se defendendo com questões pouco convincentes. Isso me irrita. Isso me faz gostar menos de você.

A mesa ficou em silêncio por algum momento. Eu perdi os argumentos. Ele esgotou os dele. Entre o refrigerante e o pão de queijo, nos olhávamos muito pouco. Ele nunca esteve tão bonito.

- Você foi embora com o Pedro outra noite – ele mostra as unhas.
- Sim.
- O Pedro deve estar eufórico com essa situação – ele lambe os lábios.
- Não conversamos sobre o assunto.
- Mas ele lê o seu blog – ele mostra os dentes. Afiados.
- Como é que você sabe?
- Usei o computador dele por duas vezes – ele abana o rabo.
- Sua implicância com o blog, eu posso solucionar. Já com o Pedro, eu só posso dar de ombros.
- Esse cara sempre foi apaixonado por você – ele salta para machucar.
- Marque um duelo. Saia na porrada. Meçam os paus. Não tenho nada com isso.
- Não vou me surpreender se vocês começarem a namorar – ele ataca, arranha e arde.
- Os dias são surpreendentes. Não perca a esperança.

Chamei o rapaz e pedi a conta. Impaciente e decidido, deixei duas notas de dez reais sobre a mesa e antes que o garçom selasse em cifras o que eu havia consumido, levantei sem encarar aqueles olhos e encerrei o encontro:

- Acho que isso paga a conta.
- Espera.
- Me deixa ir embora. Sem fazer cena. Só ir embora. A gente não consegue ficar mais juntos. Por cinco, dez minutos, como é que você pretende permanecer? Nós seríamos como em A Guerra dos sexos, brigas patéticas intermináveis sobre qualquer motivo. Um grande pastelão.
- Há mais alguém, não há? É o Pedro?
- O que você quer saber? Você espera uma resposta objetiva? Sinceramente, é isso o que você espera? Que eu te diga a hora, o motivo e o dia? Você quer um resumo, cara?
- É que eu não consigo compreender.
- Eu não te quero mal, em hipótese alguma. Eu só quero ficar bem. Eu também não tenho um novo amor. Eu tenho um monte de dúvidas. Eu não quero sentar aqui e te olhar e te dizer um monte de palavras sem sentido, te agredir me agredindo. Eu tenho tantas boas lembranças de nós dois. Eu tenho um carinho enorme por você para te alimentar algum motivo que te encerre qualquer questão. Não saber tira a gente do eixo e que se dane. Ninguém se separa com o cabelo no lugar e a cama arrumada.

Saí no impulso esbarrando no garçom. Derrubei os copos sobre a mesa. Ainda tive tempo de ouvir o espatifar dos vidros. Depois o que houve foi o silêncio. Como se o movimento da cidade e a praça cheia de passantes, perdesse o sentido. Fez-se silêncio dentro e fora e caminhar foi tudo o que me foi possível. Caminhar por horas, sem destino certo, até que o corpo reclamasse alguma dor, até que alguém conhecido me puxasse pelo ombro, até que eu encontrasse paz e tudo deixasse de ser tempestade.

Eu caminhei por horas. E talvez por conhecer bem a geografia da cidade ou simplesmente seguir, cheguei à porta do prédio. O mesmo prédio de todos os dias. Procurei pelas chaves. Balancei o bolso do casaco, nada. Abri a mochila, revirando papéis, livros, toalha, nada. Apalpei a calça. Nada. Depois sentei na calçada e chorei sem fim. Lembrei do seu caderninho azul e da frase, da primeira frase que você escreveu:

Vou guardar você dentro de mim e jogar a chave fora.

E chorei mais um pouco. Sem as chaves. Sem saber. Sem querer.

Até secar.