sábado, janeiro 21, 2012



GLEE de Ryan Murphy, Ian Brennan, Brad Falchuc

Vou nos situar, meu querido, caso no futuro, peguemos, eu ou você, essa carta e a memória não nos seja tão mais confiável. Estamos os dois no Rio de Janeiro e é madrugada do dia vinte e um de janeiro de dois mil e doze. Já é sábado. Não consigo dormir e penso em você. E penso em nós dois. Em busca do sono, fui ver o episódio de Glee dessa semana. A série está na terceira temporada e retomou das férias de final do ano. O episódio é o décimo e eu, aos trinta e quatro anos fico comovido ou arrepiado com os adolescentes e suas descobertas e complicações, impedimentos, realizações. Há disparidade, certamente, entre as fases da vida em que me encontro e a que os adolescentes enfrentam na série de televisão. E eu já aprendi que a vida não é um musical, acho. Mas acontece um pequeno fenômeno ali em Glee que eu gosto muito, que é de como a música pode ser usada para substituir o diálogo, para narrar uma sensação, para exemplificar e ali na facilidade da televisão, resolver as questões. Há esse pequeno – e insisto no pequeno – fenômeno, feito uma epifania que se cumpre. O cara vai lá, canta e alguém percebe que. Alguém insiste em. Alguém ama mais alguém. Alguém grita por. Ou reúne os. Ou desiste de. Ou chora por. E também sorri aos. Eu acho bonito mesmo. E sei que o programa desperta a ira dos críticos e o chamam de raso, de fake, de péssimo, irritante, surreal. Eu não ligo. Ainda vivemos uma época em que podemos gostar ou desgostar de alguma coisa e podemos manifestar isso. Mesmo quando somos gratuitamente agredidos apenas por mostrar interesse, o que me levaria para outra questão, mas não.

Glee me fez me aproximar da minha sobrinha de dezesseis anos de uma forma muito especial. Eu torcia o nariz para a série. Ela era fã e me convidou a assistir junto com ela. Passamos a nos entender mais e melhor na época que ela morou comigo e nós ríamos e também criticávamos o que considerávamos excessivo, mas sempre com um olhar carinhoso pelas personagens, à espera das próximas canções, reunindo os mp3’s que mais gostávamos, torcendo pelos rapazes apaixonados, pela Britney e a incrível Santana da Naya Rivera, que não sabem como resolver a sexualidade, mas se amam lindamente e uma série de personagens que me dariam páginas e páginas, mas não.

Então o episódio dessa semana trouxe de volta ‘The First Time Ever I Saw Your Face’. Que é cantada desde mil novecentos e cinquenta e sete. Foi interpretada por muitos cantores e a primeira vez que ouvi na vida foi na voz do Johnny Cash. Sempre me pareceu uma letra que poderia traduzir milhares de histórias e casais e corações alheios, mas até então era só uma canção de amor. Depois, muito tempo depois, em dois mil e seis, a Leona Lewis gravou no primeiro disco dela logo após ganhar o The X Factor, o primeiro, se não me engano. Era a última canção do cd e quando eu ouvi, eu me arrepiei todo porque pela primeira vez na vida, eu compreendia aquela letra. Eu era apaixonado por você e sentia tudo o que os apaixonados sentem. E aquela mulher, aquela melodia, aquelas frases, porra, eu entendo, cara. Olha, eu entendo, universo. Depois a gente se maltrata, sofre, escreve cartas, ama novas pessoas e aquela música não chega a virar uma maldição, mas evita-se. Adia-se. Mas as meninas de Glee, as quatro meninas de Glee, as leading voices de Glee – Lea Michele, Amber Riley, Jenna Ushkowitz e minha preferida Naya Rivera – foram lá cantar pra mim a primeira vez que eu vi o seu rosto.

Eu me lembro exatamente. Descendo as escadas daquela escola no Centro onde fizemos o vestibular. Me chamaram, me puxaram e a primeira imagem é a de você discutindo questões. ‘Que cara metido a sabido’ – eu pensei na hora. ‘Que cara incrível’ – eu demorei um tempo a admitir. Eu tenho ciência de que nossas impressões serão sempre diferentes. Eu fui apaixonado por você por tantas temporadas e você nunca se apaixonou por mim. Pensei que esse fato fosse nos distanciar e nos inibir qualquer aproximação, mas abrimos mão, ambos e baixamos as armas, em tempos diferentes e quando a gente percebeu, havia muita história, muita intimidade, muita alegria e paciência, condescendência também, havia uma segurança maiúscula e decisiva, hoje acredito, que nos transformou. Me machucou muito também que não estamos em um episódio de Glee.

Você ainda é o homem que imediatamente surge no meu pensamento ao ouvir essa canção. Acho que sempre será, já que foi você quem deu sentido a ela, para mim. Mesmo sem todos os beijos, a intimidade da cama, que confesso, cheguei a imaginar, fantasiar, desenhar, por muito pouco tempo, também admito. Houve rapidamente a percepção de uma incompatibilidade. Ou o receio de uma exposição que nos apodreceria, caso misturássemos o meu amor com o meu desejo. Eu sempre evitei a loucura das noites selvagens e fugi, entrei num táxi, não apareci. Sempre fiquei sabendo depois dos fatos apimentados. Eu me perguntava silenciosamente – e se eu estivesse lá? E se? Eu deixei a imaginação de lado. Intuitivamente, eu me exilava das madrugadas onde eu detectava qualquer situação onde eu pudesse causar qualquer desconforto. Para mim, principalmente.

É uma música que ao te escrever essa carta, deixa de ser secreta, ainda que nunca tenha escondido esse fato. Mas como o amor foi meu, os mecanismos e os falsos mecanismos de defesa volta e meia, me derrubam em alguma armadilha vagabunda. Feito essa canção.

Você sempre reagiu ao meu amor sendo o melhor amigo que alguém poderia ter. Essa foi a maneira que você encontrou de não me deixar escapar, de não me magoar, de tentar me preservar ao redor, ao lado, feito um porto que é seguro, você mesmo usa essa metáfora, acho bonito. Você sempre reagiu carinhosamente cada carta, cada e-mail, cada texto, cada frase, mesmo quando não imediatamente, no momento que você julgou exato, necessário. Sempre foi íntimo, mesmo sem esse coisa de entrar e sair um do outro, mas sempre íntimo, no sentido de confiar, de confidenciar, de apostar no outro como o amigo, o melhor amigo, que você soube me transformar e principalmente, manter. Eu nunca soube o que fazer com o meu amor. Sempre um fantasma, vagando por corredores enormes, à espera de qualquer susto, qualquer iniciativa, qualquer surpresa que não veio. Nunca virá. À espera. Feito alguém cheio de fé em alguma coisa invisível que não se explica e do qual nada sabemos, nada, crente, cheio de uma esperança que se renovava. E me dava material para escrever e traduzir os rasos conflitos comuns de alguém apaixonado por alguém que não é apaixonado por ele de volta.

É uma história clássica, cheia de retóricas e alguns momentos de sinceridade impiedosos, constrangedores, caso eu ligasse para a opinião alheia. E que durou, vem durando, dura mais tempo do que deveria, mereceria. Você ainda é o cara do qual eu me lembro com carinho e alguma propriedade ao ouvir uma canção em Glee. Você ainda é minha primeira opção para dividir uma alegria, uma conquista, um brinde. E também as decepções, as reclamações, as chatices dos dias. Não há mal algum nisso e embora tenha durado tanto, essa é uma das raras vezes que me sinto deslocado, como se falasse sozinho e o som da minha voz ecoasse para evidenciar o espaço que existe. Talvez tenha sido sempre assim. Eu declarando o que havia para declarar para uma parede, que não me retorna o afeto, que recebe e recebe e recebe, mas não vai responder. É uma imagem triste e também patética, se eu quiser ser cruel. E eu nunca tinha imaginado esse quadro dessa forma.

De qualquer maneira, eu queria te dizer um monte de coisas. Eu sempre evito usar ‘coisas’ porque acredito que todas elas tenham um nome. Mas acho que é hora de uma conversa, ao vivo, longe do romantismo fake das cartas e textos, para que eu possa seguir e seguir e seguir. Sem você numa sala vazia. Sem sala vazia. Sem você. Sem você ocupando um lugar que você nunca ocupou e nunca quis ocupar e que eu te coloquei, egoísta que sou. Me perdoe por isso. E obrigado por isso, também.

Os vídeos das versões citadas. Espero que ainda possamos acessá-los sem ferir direitos autorais, apenas ouvir, conhecer, recomendar.



Glee:



E a Leona Lewis, ao vivo:


quarta-feira, janeiro 11, 2012



BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS,
de Michel Gondry


I’m fine without you.

Mentira.

Depois o telefone celular não tocou. E eu não sou exatamente um cara de celular. Eu vivo bem com o meu, mas não é um objeto essencial. Eu passo bem sem ele. Volta e meia eu esqueço que o tenho, não fosse uma ou outra mensagem, uma ou outra ligação perdida no meio do dia. Uso o celular mesmo é para ouvir música. Fico puto até se alguém me liga no meio de uma canção. Mas o telefone não tocou. Eu percebi. Eu cheguei a me ligar do meu fixo para me certificar que ele estava com sinal, de que estava tudo bem. De que a qualquer momento. Eu espero pela ligação com a certeza irredutível de que a sua lembrança, a sua memória afetiva, é óbvio, não há qualquer dúvida, de que você deixou para o final do dia, feito o ano passado. Para encerrar com chave de ouro o carinho da sua voz no meu ouvido ansioso. E onze anos depois, você não esqueceria de mim. Essas coisas gravam no corpo da gente. Misturam-se ao DNA, fazem parte da nossa identidade, a gente nem tem a noção de que sabe, mas sabemos. Eu vou enumerando os fatos e inventando mentiras novas para apagar as mentiras velhas e acreditar sem vacilo, que é só uma questão de minutos. Você vai ligar e me desejar feliz aniversário.

Mentira.

Três da manhã você me liga, mas já não é mais. Já foi. E fritando na cama, eu não te atendo. E aos prantos na cama, eu não entendo. E por que tanto drama, cara? É só uma data que comprova que você está mais velho. Você nunca ligou para aniversário. Nem para o seu nem para o alheio, qual é o problema se ele deixou de lembrar? Porque a correria, a vida, os ensaios, a lua lá fora e o trânsito, o caos dos aeroportos, a passagem exorbitante de ônibus, o acidente de carro, o casamento da melhor amiga, a loucura que foi chegar lá e sair de lá e o álcool no sangue, eu ando cansado demais e não consigo mais dormir, eu acho que eu nunca mais vou dormir, há essa insônia recorrente que me assusta e me assalta as madrugadas, esse verão abafado dessa cidade histérica e olha que eu nem falei ainda no carnaval, as mulatas, os mulatos, os gringos e seus paus enormes e aquele ator que caiu na webcam, quer coisa mais natural que alguém batendo uma punheta com outra pessoa assisitindo, provavelmente também batendo uma punheta e eu corro de um canto da cidade para outro canto da cidade, vez ou outra eu preciso respirar para saber qual o meu destino. O meu destino.

Você esqueceu o meu aniversário.

Ainda que o prédio tenha desabado ou o seu carro quebrado o eixo de direção, ainda que você tenha feito e refeito todas as coisas que você faz todos os dias e eu sei dessa diferença entre nós, os seus dias nunca são iguais, ainda que eu estivesse mais longe do que eu estou e esse deserto da distância é cruel, muitas vezes impiedoso, já que distância não exige nem nunca exigiu geografia, ainda que eu pensasse em mais trinta mil linhas, você esqueceu. E se a reação inicial é um choro preso cheio de direção e sem esquinas, o que me surpreende logo após é o silêncio e as infinitas constatações invisíveis que começam a pipocar e a fazer sentido. Estranho eu me estranhar. Eu deveria atender e gritar, reivindicar a atenção que eu queria, chorar de soluçar e te xingar e me permitir fazer uma cena, quatro cenas e te ouvir manso, tentando remediar a minha euforia desmedida, me dizendo que o mundo etc coisa e tal.

Mas veio o silêncio.

Eu li a tua mensagem e recebi o teu recado logo depois abrindo o e-mail, o facebook, essas ferramentas que substituíram o celular. Você me cercou de justificativas e eu entendi todas elas, ainda que nenhuma delas tenha apagado a minha insistente frase cinematográfica e aqui fatalmente real – você me esqueceu – mas as tuas respostas vieram para saciar a minha sede imensa de perguntas que eu nunca fiz. Entre nós esse foi sempre um sinal de inteligência. Você me dava, eu te dava as possíveis respostas para as tuas prováveis perguntas e eu achava que isso era um sinal de ‘uau, como a gente se entende, que incrível essa sintonia cósmica’. Sabendo eu, sabendo ele muito bem como eu penso, a gente antecipa as respostas das questões. E quando, por descuido da atenção, a gente deixa passar algumas delas, eu te observava me olhar com alguma impaciência que reprovava o lapso – ‘então você não me compreendeu antes de todos eles’?

Eu nunca entendi nós dois.

Juntos na multidão. Depois separados na multidão. Depois juntos na multidão, imbatíveis. E separados mais uma vez porque as tuas escolhas te levaram, as minhas escolhas me deixaram e é assim com todo mundo, deve ser. Eu romanceei o cotidiano e embaralhei tanto os dias. Eu fiz um punhado de textos que eu te agradeço porque eles sempre me esclareciam da beleza que é se apaixonar, da grandeza que existe em admirar alguém, da pobreza que existe quando a gente insiste e persiste nos erros inevitáveis do não, do nunca, do talvez. Como é que se sobrevive às migalhas do dia anterior? Como é que a gente segue em frente, sublimando, fingindo que não doeu, que não ardeu, que não surtiu um efeito seco te ver bem quando eu fiquei na merda? Como é que a gente não estraga as festas, os aniversários, as mesas dos bares quando a gente sente que o que a gente sente é um problema nosso, insolúvel, muitas vezes e não vamos nós estragar a festa, toma essa caipirinha, engole esse comprimido e vamos rir das pernas cambaleando, das caminhadas em busca de um táxi, dois táxis com destinos diferentes?

Eu me viciei no final infeliz.

E tudo o que eu busco agora te envolve cada vez menos, a gente foi se deixando para trás, para o lado, para depois. Até esquecermos as datas dos nossos aniversários e começarmos a nos tratar como conhecidos que perderam a intimidade em algum momento porque se descuidaram de si mesmos. Nobres estranhos. Que não se reconhecem mais ou cada vez menos. Eu fui sempre o cara que se preparou para esse momento. Sempre me preparei por ter pavor de que ele pudesse existir em qualquer época nossa. Um inimigo que eu sabia que tinha nome e que apesar de falar sobre ele, de nos alertar sobre ele, nunca imaginei como seria quando, de fato, ele fosse acontecer de verdade. Nos nossos dias. Mentira. Nos dias, que não são nossos. Eu não sei reagir ainda. E meu silêncio me assusta. Do sangue italiano que me ferve quase sempre, fico surpreso quando sou surpreendido por esse deserto da calmaria. Da lucidez, de uma imparcialidade sobre os campos inédita até então. É como se me estalasse: então é isso, nego. Aceite e não enlouqueça. Não aceite e lute mais uma luta das centenas de lutas que te machucaram e te jogaram na arena, mais vulnerável impossível, mais mendigo sem vergonha improvável.

I’m not fine without you.

Mas ao mesmo tempo é preciso encontrar em algum lugar, dentro de tudo isso, um momento, um espaço, uma oportunidade de compreender que I’ll be fine without you. Que eu não quero mais enlouquecer with you. Ou por você. Que eu preciso daquele tatibitate do olhar para o lado, olhar adiante, olhar qualquer outro, me olhar no espelho. De todos esses anos, muitos deles, eu estive sozinho tentando equilibrar a minha solidão a dois. Eu me habituei, porra de vício, a ter fôlego onde não deveria respirar, a criar expectativas onde não havia motivo, a fantasiar dois onde havia um. Essa loucura despretensiosa de achar, de pensar, de tecer, de ter certeza, de jurar de pé juntos que ‘porra, esse cara é para a vida toda’. Balela. Bem feito pra mim. Essa mocinha adolescente dos filmes românticos que nem viu os cabelos brancos chegar. E se fudeu no meio, bem antes do fim. Bem antes do fim porque nessa ilusão cor de rosa ainda há algum sopro de esperança. Em si mesma.

Escolhi rever o filme para, quem sabe, ao ver outra história na minha frente, esquecer um pouco da minha. Ou aprender como é que faz. Ou poderia fazer. Mas não sobrou muito ali. E por alguns minutos, dentro do ridículo e de não ter vergonha do ridículo, eu quis tanto e tanto que existisse aquela clínica e eu pudesse rasurar, recomeçar, zerar, ir em outra direção ou ficar parado, sem reação ao momento em que nos cruzamos, o momento em que eu percebi a tua chegada e.

Mas nada disso é possível.

E eu me encontro no mesmo lugar das outras vezes.

Em um quase silêncio.

O without you mais longo e definitivo da nossa história.