TEMPESTADE DE VERÃO de Marco Kreuzpaintner
- Você não lembra?
- Não é charme. Eu realmente não lembro. O teu rosto é familiar, mas não sei exatamente...
- Bem quente... meu rosto é, de fato, familiar. Literalmente, eu diria.
- Vai me dizer que você é um irmão que eu não conheço e que me segue todas as vezes que eu saio de casa e resolveu se apresentar justamente hoje?
- Menos. Bem menos.
- Escuta, isso aqui é um bar gay. Cheio demais para uma terça-feira, aliás. Eu já tomei três latinhas. Então é melhor cortar o prólogo porque eu já enchi.
- Vou te dar uma dica.
- Não sou bom com dicas.
- Vou te dar mais do que uma dica. Casa de férias, nós dois atrás do muro. Eu abaixei a sua bermuda. Você me deu um soco e saiu correndo.
- Fernando?
- No mesmo dia, mais tarde, você abaixou a mesma bermuda e me permitiu te tocar.
- Nós ficamos nessa brincadeira por meses. Você foi o primeiro, a primeira pessoa que me tocou. Que despertou em mim qualquer sensação parecida com o prazer.
- Não existia maldade. Era ingênuo, quase ingênuo. Não era sexual, era um exercício de curiosidade.
- De investigação.
- Sempre que me perguntam sobre a minha primeira vez, eu lembro de nós dois. Não associo ao primeiro beijo ou ao primeiro sexo. Eu lembro de nós dois, com dez, onze anos, nos escondendo atrás do muro, depois brincando de se descobrir, de se investigar, percebendo o corpo do outro, se deixando analisar, sem qualquer palavra.
- Sabe que eu não tinha a certeza de que essa lembrança tão forte era real? Acreditei durante muito tempo que eu havia inventado uma memória na infância para me justificar. Para me fazer tentar compreender todo o depois.
- Até o dia que a sua mãe nos viu no quarto. Eu lembro do rosto dela, da expressão do rosto dela. Te pegou pelo braço e disse que nunca mais você ia voltar a me ver.
- Ainda bem que ela errou.
- Errou?
- Claro. O nunca mais terminou. Nunca mais foi ainda agora.
- Eu te vi entrar, eu fiquei eufórico. Não sabia se você ia me reconhecer. Não sabia se você estava acompanhado. Se esperava alguém. Fiquei te observando para saber se era você mesmo. E para tomar coragem para me aproximar.
- Inacreditável. Eu vou fazer trinta anos em dezembro.
- Faço trinta ano que vem.
- Eu não sei o que te perguntar. Sabe que se eu beber mais um pouco e dormir a noite toda, é capaz de amanhã eu despertar e pensar que tive um sonho com você aparecendo nesse mesmo bar, depois de tantos anos...
- E depois?
- Me diz aí. Me conte. Qual a tua profissão? Onde você vive? E a família, a nossa família, eu nunca mais vi ninguém, eu nunca mais quis saber de ninguém. Já foi tão complicado driblar as diferenças com pai, mãe, irmão e irmã, eu preferi, por uma questão de praticidade, me afastar. Imagina aquela italianada toda chorando no meu pescoço os planos que eles fizeram para mim e que eu não pude corresponder.
- Passei três anos na Itália.
- Estudando?
- Namorando. Depois noivei. Depois acabou.
- E ele voltou para o Brasil?
- Ela.
- Ela?
- Sim, ela.
- Sabe que a modernidade me assassina a compreensão? Você foi para a Itália e namorava uma mulher, é isso?
- Sim.
- Daí você voltou, continua hetero ou apaixonado por ela e freqüenta bares gays só para confundir a carência masculina local e ainda ganha uns comentários de ‘como ele é moderno’.
- Não lembrava da sua ironia.
- Aos dez anos eu não sabia nem dizer o meu nome inteiro sem ficar envergonhado. Mas me diz, por que largou a vida na Europa e retornou? Não era mais fácil para você casar, ter filhos, construir sua carreira por lá, com mais segurança e mais opções para vocês dois?
- Mais fácil? Você faz parecer como uma fórmula.
- Mais simples.
- Você parece aquela italianada toda chorando no meu pescoço os planos que eles fizeram para mim e que eu não pude corresponder.
- Então você é gay. Fico mais aliviado, sinceramente.
- Então você é um babaca. É sério que na boca dos teus trinta anos, você ainda perde teu tempo classificando as pessoas?
- Pede uma cerveja, rapaz. E relaxa. Solte as pedras.
- Não sei o que eu estava pensando quando eu me aproximei. Sei lá, pensei que sendo meu primo, você ia ser gentil e carinhoso e a gente ia brindar o encontro e ficar amigos, de longas conversas.
- Fernando, eu só te fiz algumas perguntas. Não quis ser grosseiro.
- Eu estou no Brasil desde fevereiro e tudo o que as pessoas fazem é me perguntar sobre a minha vida pessoal. Só que eu não tenho que satisfazer a curiosidade de ninguém. É a minha vida, entende? Se eu não quiser falar sobre ela, ninguém pode querer que eu fale.
- Esquece, então. Apague tudo o que te perguntei. Vou falar sobre mim. Prometo não fazer perguntas. Não te questionar, então.
- Não precisa. Não era melhor quando a gente não dizia uma palavra e se entendia?
- Aos dez anos a vida é mais simples. Mais assustadora, mas muito mais simples. Vejamos o que eu posso te dizer. Eu não casei. Não tenho planos de ter filhos. Sou ator. Estudei para isso. Estudo. Já que você não gosta de definições, eu prefiro me relacionar com homens. Por isso freqüento esse bar. Apesar de que aqui virou um lugar para encontrar a turma. Boa parte dos meus relacionamentos, duradouros ou não, foram com rapazes. Já fui apaixonado por uma grande amiga do colégio. Durou muito tempo. Nunca nos beijamos. Hoje somos os melhores amigos que pode existir. Tenho uma locadora de filmes. Faço outras atividades para ajudar nas contas do mês. Nunca saí do Brasil. Desde os vinte e seis, eu estou solteiro. Se eu te disser que é por opção, é mentira. É que é realmente, aliás, incrivelmente difícil, você esbarrar em alguém para dividir a vida. Não adianta só querer. Precisa lutar. Luta braba. Eu sou irônico, especialmente quando me sinto intimidado. Sou rápido e também impulsivo. Mais... vamos lá... o que posso te dizer mais? Eu escrevo. Não é profissionalmente e eu adoraria ser pago para escrever o resto da minha vida. Mas é mais que um romance, é mais que um hábito, é uma grande delícia, essa é a verdade. Tenho uma série de infinitos desejos mínimos. Nenhum gigante. Esses pequenos desejos, que não são só meus, são desejos que se estendem às pessoas que estão ao meu redor. Incluindo as virtuais. Sou passional. Eu me lanço. Com o tempo, achei que fosse me cansar. Ou enjoar. Mentira. Aprendo alguns poucos mecanismos para me preservar. Mas essa idéia, de me lançar no que é novo – uma pessoa, uma idéia, um projeto, um objeto, um filme, livro, uma peça de teatro, um velho alguém, não importa – essa idéia do salto me faz querer ser alguém melhor. Não moro sozinho. Não tenho o desejo de morar sozinho ainda. Não sou tão difícil quanto eu pareço. Gosto de delicadezas. Eu já me apaixonei por um homem porque eu achava linda a maneira como ele ajeitava o cabelo. Nasceu dessa percepção, sabe? Durou quase três anos. Eu não faço o que não tenho vontade. Eu penso em nós dois. Eu penso no coração acelerado. Penso na velocidade do tempo. Penso que se eu passasse por você na rua hoje, eu não ia saber que você era aquele menino tão importante e tão fundamental na minha história. Teus traços mudaram.
- Você é o homem que eu imaginei que você fosse. E é ainda mais.